Biografia do Padre Jesuíta Gabriel Malagrida

Antes de ser o espírito Caboclo Sete Encruzilhadas - o fundador da Umbanda,  viveu uma vida como índio brasileiro; e antes dessa, foi um Padre Jesuíta.

Prefácio.

Desde há muito, ressente-se de verdadeiras informações, o verdadeiro médium Umbandista.

O verdadeiro médium Umbandista carrega em si, não só a curiosidade latente, mas também, a necessidade de aprender mais e mais, sobre tudo o que está relacionado com o que pratica. E isso, porque o meio literário disponível, pouco ou nada trás nesse aspecto.

Ou as “obras” descambam para o fetichismo, magismo, mentiras, ignorantismos, ou para os “contos”, onde cada um retrata a “sua” verdade, e não mencionam a causa primeira da existência da Religião de Umbanda, bem como os aspectos de vida de seus fundadores, e as reais diretrizes para a Religião.

Elimino de meus comentários, os contos espíritas, cujos conteúdos retratam lições de vida e que enaltecem o Amor, pois isso vai de encontro à única Doutrina deixada por Cristo: “Amai-vos uns aos outros, como Eu vos amei”!

Tudo o que fala de convivência e lições baseadas no Amor, tem o meu irrestrito apoio e juntar de forças nesse sentido.

Muitos já me disseram que eu sou “amargo” nessas questões de relacionamentos e que não sou tolerante com “irmãos” que vivem atolados por indolência ou comodismo, em suas ignorâncias.

Ora, sou um Umbandista.

Carrego em mim, tendências de comportamento, que fazem parte de minha personalidade.

Sou ainda, produto “educado” nos meus meios de convivência.

E, essa “educação”, vista com a lógica dos fatos, me diz o seguinte: - “porque nós Umbandistas de Fato e de Direito, temos de aceitar sem melindres, as atitudes e as informações com origem em macumbeiros; e estes não podem aceitar sem melindres, as atitudes e as informações com origem em Umbandistas”?

Para quem se questiona, que analisa, junta o que vê ao redor, filosofa sobre tudo, faz tese, confronta com a anti-tese, e depois encontra a síntese, ao analisar as causas do surgimento da Umbanda e seus propósitos, e depois faz comparação com o que hoje está instalado no meio, querem que eu seja o quê?

O que é ser Umbandista, já que a sua Direita orienta e sua Esquerda cobra? Não há opção. É necessário ser os dois. Não pode haver cobrança sem anteriormente ter havido orientação correta.

Ser dócil e usar do Amor me torna a sua Direita; e dessa forma, entendo que me atolarei junto aos demais Umbandistas calmos e pacientes, que, por índole, pouco ou nada fazem pela sua Religião.

As palavras lindas da docilidade, fraternidade, Amor, ... e as tantas outras virtudes, entendo que somente conduzem o Umbandista da Direita para a sua Cruz de suplício; e, à exemplo do Mestre Jesus que, como a própria história prova, outros tiveram de sofrer horrores para incutir uma idéia (ou Religião) idealizada, ficando ainda incumbido à outros e de poder temporal, a tarefa de consolidar a idéia.

Essa forma de Amor, por melhor espiritualmente que seja, na minha opinião, visa convencer por sentimentos; o que não é o meu forte, já que a minha lógica me diz que o ignorante em conhecimentos se mostra apegado às superstições, e isso porque é possuidor de um espírito inferior; e, um espírito inferior é rico em animalidade e instinto; e nunca rico em sentimentos; e muito menos ainda, que esteja munido de Lógica, Racionalidade e Espiritualidade.

 Portanto, alcançar o intelecto de um inferior pela emoção dos sentimentos, e entre eles o Amor, entendo que a tarefa é árdua; acho até, que é impossível.

Ser um Umbandista atuante e sem compactuar com a atual macumbaria que se travesti de Umbanda, é ser real com a realidade atual das “umbandas” que eu vejo ser praticada e que não se baseiam em algo ou alguém, e sim, sendo apenas o retrato de seu dirigente, quer seja o material (pai ou mãe de santo), ou o espiritual (o guia chefe do terreiro).

Eu procuro ser um Umbandista, idem ao jeito de ser da Esquerda – um cobrador de atitudes.

Com os meus escritos, aulas, palestras, livros, e outras formas de comunicação, eu pergunto para cada um com quem eu tenha contato, e sempre pela verdade dos fatos, mesmo sendo relativo para a atual condição em que vivemos, se cada um realmente sabe o que é a Umbanda em sua essência original e primária, nos moldes de seus fundadores.

Com isso, eu entendo que é melhor para cada um que se diz Umbandista, que se desprenda das ilusões compradas dos mercadores da religião; e não, de rejeitar o que o próprio instinto, diante de realidade, diz para aceitar.

Contra fatos não há contestação.

Meu intuito, ao trazer a Biografia de Gabriel Malagrida, satisfaz a minha ânsia de saber mais sobre essa figura misteriosa e desconhecida para a totalidade dos que se dizem Umbandistas.

É possível ser cristão sem conhecer Jesus?

É possível ser Umbandista sem conhecer as figuras dos Fundadores?

É possível ser Umbandista sem conhecer Zélio Fernandino de Moraes, o médium que incorporou o Caboclo Sete Encruzilhadas, e este, fundou a Religião de Umbanda?

É possível ser Umbandista sem conhecer o espírito Caboclo Sete Encruzilhadas, que disse ser em sua última vida na carne, um índio brasileiro?

É possível ser Umbandista sem conhecer quem foi o homem – Padre Jesuíta Gabriel Malagrida, a penúltima vida como encarnado, do Espírito Fundador da Religião de Umbanda?

É possível ser Umbandista sem o conhecimento dos fortes aspectos espirituais que a envolvem? Muitos dizem que Platão, Buda e Jesus, seriam as reencarnações de um mesmo espírito; e todos tiveram o mesmo propósito: “educação”.

Em mesma linha, também dizem que o Caboclo Sumé, mais conhecido na Umbanda como Caboclo Flecha Dourada, também foi uma reencarnação de Jesus em terras brasileiras. Só que, muitos ainda dizem que o Caboclo Sumé seria o mesmo espírito que se identificou como o Caboclo Sete Encruzilhadas, e este fundou a Umbanda.

Em isto sendo possível, que o Caboclo Sete Encruzilhadas tenha sido uma manifestação do espírito (mais conhecido) de Jesus, note que o Caboclo disse que em vida anterior tinha sido um Padre Jesuíta, e de nome Gabriel Malagrida.

Dentro dessas divagações, podemos ficar pasmos, assombrados; mas, acima de tudo, entendendo o que está envolvido na espiritualidade da Umbanda, devemos perceber a importância e a seriedade que se espera de um Umbandista.

Mesmo que os planos de reencarnação não coloquem a manifestação do Caboclo Sete Encruzilhadas como uma manifestação do espírito de Jesus Cristo, a seriedade da Umbanda, as responsabilidades do Umbandista, e nem a qualidade superior do espírito fundador, perdem importância.

Meu intuito ainda, é o de fazer as pessoas que se dizem Umbandistas pensarem muito, e sobre as principais questões que enumero abaixo, mas que, não esgota as outras questões que serão próprias de cada um, ao analisar os fatos da vida do “homem, que, após desencarnar como Jesuíta, renasce como Índio em terras brasileiras, e depois, se apresenta espiritualmente plasmado na forma de um Caboclo de terras brasileiras, e incorporado mediunicamente com a missão de fundar uma nova Religião no Brasil – a Umbanda”.

Primeira questão:

A Religião de Umbanda foi fundada por um espírito que se identificou como tendo sido um índio brasileiro em sua última vida encarnado.

Na história de sua penúltima vida encarnado, ele foi um Padre católico.

 Porque ele, o Caboclo Sete Encruzilhadas se manifestou em um Centro Espírita Kardecista, e não na frente do Papa católico?

Segunda questão:

Em sua penúltima vida encarnado, ele foi um catequizador de índios brasileiros; e lógico, pela data que aqui viveu, sabe-se que ele também conviveu com negros escravos que vieram da África.

Depois, reencarnou e viveu e desencarnou como um índio brasileiro.

Como espírito, veio a fundar uma religião – a Umbanda, onde nela, aconteceria a manifestação de espíritos de índios e de negros ex-escravos, e nas qualidades principais de doutrinadores e de conselheiros.

Quando vivo como Jesuíta, Malagrida considerava os índios como brutos e selvagens.

O que o fez mudar de conceito? Sua experiência carnal como índio? Ou o mundo espiritual lhe mostrou outra situação? Ou, o que?

Terceira questão:

Como norma de doutrina, o fundador da Umbanda disse: -  “A prática da Caridade no sentido do Amor Fraterno, será a característica principal desse culto, que terá por base o Evangelho de Cristo, e como Mestre Supremo: Jesus”. 

Também, o fundador disse: “Cumpre acentuar que, na Umbanda implantada pelo Caboclo Sete Encruzilhadas, não é utilizado o sacrifício de aves e animais, nem para homenagear entidades, e nem para desmanchar trabalhos de magia, ... o holocausto, ou sacrifício de animais, é totalmente alheio às práticas da Umbanda, ... não cobrar, usar o branco, Evangelizar (em nome de Cristo), e utilizar as forças da Natureza, ...”

Como seria possível o conhecimento do Evangelho de Cristo, se tanto o índio como o negro, como sentido pelo Malagrida, em vida carnal rejeitavam a catequese e mantinham suas doutrinas de berço – o índio com a pajelança, e o negro com o seu fetichismo primitivo?

Esses negros e índios espirituais, na Umbanda, seriam diferentes?

Seriam preparados no mundo espiritual para essa missão?

E, dentro da Lei dos Semelhantes, onde se atraem os iguais, índios e negros doutrinados em Cristo, encontrariam, com facilidade, médiuns também doutrinados em Cristo?

 Quarta questão:

Se a resposta da primeira, é o plasmar de forma espiritual, e adotou a de caboclo para “bater de frente” com os preconceituosos kardecistas que o expulsaram de seu templo, e de mostrar, que na sua nova religião, não haveria o preconceito;

e que na segunda, os índios e negros de última encarnação já carregavam bagagem erudita “escondida” por necessidade de pagamento de carma, e também de viverem em contato com a Natureza , readquirindo suas erudições após o desencarne;

e na terceira, porque índios e negros estavam “esquecidos” de seus passados eruditos e cristão, e por isso adotaram na integra os seus meios vividos;

e ainda, que a maioria dos índios e negros de sua época de Padre Jesuíta Catequizador, pela Lei da Reencarnação, estão novamente habitando corpos de brasileiros, e portanto, a Umbanda do Caboclo, que foi o Padre Jesuíta Catequizador, seria para este último, uma forma de continuar essa catequese iniciada; 

então, cabe aqui, perguntas cruciais:

- Atualmente, nos dias de hoje, na maioria dos terreiros, na manifestação de espíritos de  índios e de negros, porque eles não estão Evangelizando em nome de Cristo, e por experiências de contatos, tanto os espíritos como os médiuns, pouco ou nada sabem sobre a Doutrina de Cristo?

- Pelo contrário, visto que a maioria fazem fetichismos puros e rituais primitivos, esse proceder não os tornam desgarrados dos ideais da Umbanda? Ou esses espíritos são o que?

- Com se verificam formas diferentes de manifestações de cultos de “umbandas”, e nelas se observam misturas de rituais africanos, indígenas, de catimbó, de magias, de candomblé, de fetichismos diversos, de macumbas, de matanças, banhos, e tantas bandalheiras, isso não é contrário às normas ditadas pelo fundador da Umbanda?

Quinta questão:

Se Umbanda é uma só, e a dos fundadores, porque existem tantas umbandas, e umas sendo diferente de outra?

Muitas outras questões aguçam a curiosidade, pois estão relacionadas com os comportamentos estranhos que se verificam em templos, terreiros, agremiações, federações, escolas, etc. , e que se dizem, infelizmente, como sendo praticantes da Umbanda.

Mas, fica a critério de cada um, Umbandista ou não, de formularem suas perguntas, e de exigirem as respostas das pessoas onde estão ligadas, e que dizem ser “representantes” da religião.  

Importante:

A Religião de Umbanda foi fundada em 15 de Novembro de 1908, e pelo espírito que se identificou como “Caboclo Sete Encruzilhadas”.

O seu médium, de apenas 17 anos de idade, era o jovem Zélio Fernandino de Moraes.

Todos esses fatos aconteceram dentro do Centro Espírita Kardecista de Niterói, Rio de Janeiro.

Um videnTe, no local, perguntou ao Caboclo, porque ele se identificava como índio, se estava enxergando um espírito com muita luz,que se vestia com vestes clericais.

O espírito respondeu: - Em uma vida anterior (a penúltima e antes de nascer como índio brasileiro), fui Padre Jesuíta, e de nome Gabriel Malagrida, ..., onde inclusive, previ o terremoto que aconteceria em Lisboa, ...

Observação: Maiores informações e detalhes precisos da História da Fundação da Umbanda, o autor tem trabalho separado deste, com tudo o que foi possível levantar, inclusive com a sempre bem vinda ajuda dos espíritos amigos, sobre o acontecimento e todos os seus envolvimentos. 

Com tudo o que acima foi dito, e para se pensar, cabe aqui o resumo lógico dos fatos vistos e apresentados:

 Primeira lógica: O espírito Caboclo Sete Encruzilhadas, fundou a Umbanda e acompanhou mediunicamente o seu médium Zélio, até o fim de sua vida terrena. Também por lógica, o fundador da Umbanda, em espírito, e hoje, junto com o espírito do Zélio, coordenam a sua religião fundada, e em sua cidade espiritual – Aruanda.

Nesse caso, ainda cabe aqui uma pergunta: - “Porque pessoas, em seus livros, insistem em afirmar que a Aruanda é comandada por espíritos que não o Caboclo Sete Encruzilhadas e Zélio, sendo comum informarem ser o espírito de Pai Benedito de Aruanda”?

 Segunda lógica: Se, em sua última vida reencarnado, o Caboclo Sete Encruzilhadas viveu como um índio brasileiro, não é lógico supor que foi no sentido de ter mantido um contato mais estreito com a Natureza e seus elementos, e isso no sentido de angariar mais conhecimentos no sentido de preservação da Natureza, tão necessária à vida do Ser Humano?

Confirmando ainda essa lógica de pensamento, na sua história de vida como Padre Jesuíta, ele deu mostras de poder ver o futuro, tanto é que previu um terremoto em Lisboa – Portugal, anos antes de acontecer. Portanto, viveu como índio em contato com a Natureza, exatamente para poder trazer uma religião fundamentalmente ecológica.

Nessa questão, cabe aqui, uma outra pergunta: “A Umbanda, sendo voltada a preservação do eco-sistema, nunca iria permitir que o real Umbandista quebrasse garrafas nas pedreiras, rios, lagos, mar, e nem que emporcalhasse os sítios da Natureza, e muito menos que acenda velas em matas com o risco de provocar fogo e incêndio, e tantos outros danos. Porque, então, pessoas que se dizem Umbandistas cometem tais desatinos contra a Natureza”?

 Terceira lógica: Em sua penúltima vida reencarnado, o Caboclo Sete Encruzilhadas viveu como um Padre Jesuíta Cristão, e foi um grande missionário e pregador da Palavra de Cristo, e ainda acumulou cargos de professor, inclusive de Teologia. Tudo isso, não foi uma preparação para poder comandar uma nova religião baseada no Evangelho de Cristo? Porque então, médiuns e espíritos que se dizem da Umbanda, não conhecem e não pregam o Evangelho?

Cada um de nós pode fazer a diferença.

Informar a Verdade é um meio de fazer pessoas se conscientizarem.

Conforme dissemos no início, o verdadeiro Umbandista ressente-se de verdadeiras informações.

Essa é a nossa pequena contribuição, no sentido da separação do joio do trigo.

Boa leitura.

Gabriel Malagrida

Nasceu na data de 18 de Setembro de 1689, na Vila de Managgio, norte da Itália.

Desde criança, deu provas de muita inteligência, e uma tendência exagerada para o misticismo.

Adorava estudar religião e aproveitava as férias para ensinar catecismo aos irmãos e colegas de rua. Sua brincadeira predileta era montar um altar no quintal e ali, rezar e oficiar missa.

A sua mãe, Dona Ângela, chamava o filho de “o Anjo da casa”.

Aprendeu com o seu pai Giácomo, o dom da caridade. O seu pai era um médico de renome, consultado até por príncipes, mas dedicava boa parte de seu tempo cuidando de doentes pobres que visitava nas distantes montanhas.

Na parte nobre da casa, havia o que os Malagridas apelidaram de o “quarto do santo”, e isso por conta do teto coberto de pinturas de Nossa Senhora. O sonho do casal era ver os filhos formados padre e rezando missa ali. O projeto deu certo. Dos onze herdeiros, três viraram sacerdotes.

Aos 12 anos, o pequeno Gabriel foi estudar no colégio dos Padres Somascos, na cidade de Como.

Gabriel não era um aluno como os outros. Ele tinha hábitos estranhos. Mordia os dedos até sangrar, e quando lhe perguntavam a razão daquilo, mordia os dedos até sangrar; e quando lhe perguntavam a razão daquilo, respondia: “é para a salvação dos infiéis”. Nascia assim, o costume das penitências físicas que o acompanhou até o fim de sua vida terrena.

Estudou em colégios na cidade de Milão, até o ano de 1711, quando completou os estudos regulares. Tinha 22 anos de idade.

No mesmo ano de 1711, em 27 de Setembro, foi para a cidade de Gênova, e entrou na Companhia de Jesus.

Em 1713, com 24 anos de idade, formou-se Jesuíta. Por vontade própria, chegava a fazer jejum três vezes por semana; e dizia que era para refrear a natureza intima, e guerrear contra as tréguas do corpo.

Estudou até o ano de 1721, quando então, resolveu dedicar-se às Missões de Catequeses, que eram feitas em terras novas – colônias, e aplicadas sobre povos selvagens, ou que não tinham o conhecimento da igreja católica.

Para conseguir o seu intento de virar Missionário nas Américas, ele precisava convencer o Bispo Geral dos Jesuítas. Para esse convencimento, precisou trocar os Estudos Avançados de Teologia, pela Literatura pela Catequese dos Índios.

Quando das entrevista com o seu superior, o convenceu com as seguintes palavras: “Aos povos da Itália, não cansam meios de chegar à salvação; além-mar, pelo contrário, inúmeras nações jazem ainda nas trevas da idolatria; vamos acudir a essas almas desamparadas”.

Nesse mesmo ano – 1721, Gabrile Malagrida saiu de Lisboa e veio para o Brasil, desembarcando em São Luis do Maranhão - Maranhão, onde mesmo havendo constante pedidos e até súplicas, somente após dois anos, os seus superiores o designaram para fazer pregações nas vilas e aldeias indígenas.

Os seus superiores preferiam o erudito religioso nas salas de aula dos Seminários de Jesuítas. Também entendiam que Malagrida precisava de um preparo maior e adaptação, antes de manter contato e ter convívio com arredios e perigosos nativos.

Na realização de seu antigo sonho de ser um Missionário Indígena, percorria as matas a pé, descalço, vestido apenas com a batina típica dos Jesuítas, o que, convenhamos, não era a melhor maneira de atravessar o interior maranhense, ou de outros estados, quando qualquer bom mateiro sabe, andar por lugares assim, tem que se proteger do mato com roupa de couro, botas, andar sempre a cavalo ou burro.

Também, Malagrida era um asceta; por isso, era comum, em suas pregações, ele se açoitar publicamente.

Uma vez, Malagrida rezava o Sermão da Montanha, quando lhe apontaram um homem pecador, cheio de vícios e ignóbeis costumes. Como não conseguia, com palavras, converter o cidadão, Malagrida, então, despiu seu dorso, e bateu-se com o chicote até o sangue espirrar de suas costas e atingir o pecador, este não se conteve e, em lágrima, ajoelhou-se aos pés do Padre, implorando com gemidos, o perdão de seus crimes.

Em 11 de Outubro de 1723, foi nomeado pregador do Colégio do Pará; e ali, o encarregaram como catequizador dos alunos.

Não cessava, contudo, de missionar nas cidades e aldeias circunvizinhas, até que lhe ordenaram que voltasse ao Maranhão, sendo logo escolhido para Reitor da Missão de Catequese dos índios Tobajáras.

No século XVIII, os índios eram numerosos e arredios ao contato com os brancos. A maioria dos índios já havia sofrido muito com os portugueses, quando Malagrida iniciou o seu trabalho de catequese

Nesse tempo de Malagrida, dificilmente se tinha um padrão geral de comportamento dos índios, pois algumas tribos abrigavam-se em cavernas como as feras, e alimentavam-se unicamente do que caçavam; sendo que muitas vezes envolviam-se em pelejas com outras tribos, e os vencedores devoravam os vencidos; e outras tribos, viviam nas matas fechadas, construindo casas de madeira e coberturas por folhas.

Malagrida sofria muito toda a sorte de infortúnios até conquistar a confiança dos índios que visitava em suas aldeias.

Muitas vezes, acontecia de aprisionado pelos índios, ... estes faziam assembléias e decidiam matá-lo. Por vezes, quando do ato de o matarem, acontecia um imprevisto que paralisava a ação dos índios.

Certa vez, uma índia velha, mas respeitada pela tribo, no último momento conteve o braço do índio que ia desferir a borduna na cabeça do Padre, e ela – a índia velha disse a todos: - “Pare, da última vez que um índio matou um padre roupa negra, esse índio morreu devorado por vermes que saiam de seus buracos”. Assustados, o libertaram e o trataram bem, iniciando aí, a catequese.

Outra feita, em outra aldeia, quando decidiram matá-lo, já havendo um prenúncio de tempestade, um raio caiu sobre a casa principal, nela pondo fogo. Os índios entenderam isso ser um sinal de mau agouro, e que o padre era protegido pelos deuses do céu.

E tantas e tantas outras situações de perigos enfrentados por Malagrida.

E sempre, para sua sorte, saindo ileso, ou quase.

E isso, fazia nele crescer o convencimento de que, realmente, ele era um protegido, e que a sua missão era divina.

Essa condição o sustentava em seu desejo primeiro: a catequese dos índios; apesar de que Malagrida considerava os índios, um povo bárbaro e selvagem; mas que, nunca aceitariam escravidão de qualquer forma. Exatamente por isso, o Jesuíta sempre defendeu a tese de que as aldeias deveriam ficar o mais longe possível de qualquer contato com os portugueses. Malagrida temia pela saúde moral e física dos nativos, e combatia a tradição dos colonizadores que pegavam os índios para trabalharem nas lavouras.

De 1724 a 1727, viveu entre os selvagens, missionando sempre, correndo perigos, que enfrentava corajosamente; mas, sempre dando provas de estar acompanhado de um misticismo extravagante e exagerado, o que, no futuro viria a lhe ser fatal. 

Quando ele fazia as narrativas de suas empreitadas missionárias, mencionava constantemente que vozes misteriosas o avisavam de perigos, e que todos os seus atos estavam permeados de prodígios e milagres.

Enfim, o Padre Jesuíta Católico Gabriel Malagrida, julgava-se um Favorito do Céu.

No ano de 1727, ainda no Maranhão, seus superiores o designaram para Regente (professor) do Colégio dos Jesuítas, e para a cadeira (matéria) de Belas-Letras.

Em 1728, pediu para voltar aos serviços missionários de campo, e sempre na catequese de índios.

Foi mandado para uma tribo, considerada como a mais selvagem do interior do Maranhão – a Tribo dos Barbados; onde lá, além de quase conseguir a total conversão dos índios, ainda fundou uma Escola-Missão, que teve grande desenvolvimento.

Em 1730, atendendo novamente determinação superior, regressou para o Colégio dos Jesuítas do Maranhão, e foi encarregado de reger (ser professor), ao mesmo tempo, de duas cadeiras (matérias) – Teologia e Belas-Artes.

A vida na capital não sossegou o Padre. Em São Luis, iniciou nova etapa de sua jornada: a de Missionário Popular. Ao invés dos índios, cuidava agora, só dos brancos moradores das periferias.

Dava aulas de Teologia durante a semana, e aos sábados partia para os povoados vizinhos de São Luis.

Nessas suas viagens, precisando dormir, e no mato, usava o livro grosso das rezas cotidianas, como seu travesseiro; e, para se proteger dos perigos das matas fechadas, usava um cajado.

O carisma de Gabriel Malagrida aparecia sempre quando de seu jeito de atrair os fiéis para a sua pregação. Nas igrejas, juntava os fiéis, e com um estandarte nas mãos, fazia todos saírem em procissão cantada, e pelas ruas da cidade. Parava nas praças, e o Jesuíta fazia o povo ficar à sua volta. Ali, dava aulas de catecismo, representava teatralmente as principais passagens bíblicas, e depois interrogava a platéia sobre os assuntos religiosos.

Foi numa dessas pregações interativas em São Luis, que Malagrida fez o que os livros tratam como o seu “primeiro milagre”. Falava aos fiéis sobre a importância da reconciliação entre inimigos, quando um dos ouvintes contou que cometera injúria mortal contra um de seus parentes, e que ali estava. Na frente do antigo desafeto, contou que estava disposto a pedir perdão, mas o homem não quis fazer as pazes.

Malagrida, indignado, interferiu: - Meu irmão, não quereis perdoar a vosso próximo, para que o Senhor vos perdoe? Repetiu a pergunta várias vezes, mas como o indivíduo insistia na recusa, Malagrida gritou atordoado: - Pecador, recusas a escutar o teu Deus que te convida a perdoar, não tardará que prestes contas a teu Juiz de tua dureza, e sofrerás então o castigo merecido”.

Pronto, naquela mesma noite, o infeliz morreu com um tiro de mão desconhecida.

O povo passou a tratar Malagrida como “o Profeta”, e ele carregou essa fama não só do Maranhão até a Bahia, como a levou consigo para a Europa e posteridade.

Em 1735, voltou a missionar entre os colonos, seguindo do Maranhão para a Bahia, e dali, para o Pernambuco, e depois voltando para o Maranhão.

Depois, até o ano de 1749, se conservou nessas missões, viajando constantemente por esses (hoje Estados).

Nessas suas andanças, em suas evangelizações, sempre teve um carinho especial em demandar a maior parte de seu tempo, para os dedicar aos índios.

Devido sua postura de inflamado pregador, fazedor de milagres, e de uma fé inabalável, granjeou a fama de Taumaturgo (aquele que faz milagres), e com isso, ganhou a denominação de “Apóstolo do Brasil”.

Com tantas andanças pelos Estados do Brasil, e em contanto com gente das mais diversas formas de comportamento, para Malagrida, o Brasil de então, lhe parecia uma Babilônia de Pecados.

Nos dias em que passava em cada cidade, o jesuíta pregava contra os amancebados – os casais que se juntavam sem as bênçãos do casamento realizado na igreja.

Chegava até a praguejar e amaldiçoar os casais que assim viviam, os quais, mesmo tendo conhecimento da “voz da igreja”, permaneciam na condição de indiferentes.

Ele pregava que o amancebamento destruía a finalidade da eternidade da união do homem com a mulher sob as bênçãos de Deus; e isso, além de não criar a segurança do sentido da Família Cristã, criava ainda, negativamente, a condição da imitação de demais casais, os quais se uniam sem responsabilidade perante Deus, o que poderia, sem culpa, no futuro, gerar a dissolução dos casais quando estes bem entendessem.

E dessa forma, havendo filhos, estes ficariam à própria sorte, ou sem pai, ou sem mãe, ou sem ambos, e pior, sem o Batizado perante Deus, a igreja e sociedade, agravado por não terem a educação de família, o que poderia, fatalmente, produzir mais e aumentando o número de parias para a sociedade; e entre eles, os ladrões, os assassinos e as prostitutas.

Em um de seus casos, acontecido em Fevereiro de 1744, quando fazia missão no povoado de Várzea Nova, no interior da Paraíba, ficou sabendo de caso antigo de amancebamento, onde o casal vivia junto há mais de 10 anos sem oficializar na igreja, a união pelo casamento cristão.

Malagrida foi até a casa do casal. Tentou por todos os meios convencê-los a se unirem pelo casamento. A mulher concordou; mas, o homem, turrão, achou bobagem todo aquele falatório do padre. Em vista da recusa do homem, Malagrida procurou convencê-lo por todos os meios, inclusive o da intimidação do “fogo do inferno”. Nada conseguiu. O homem não arredava pé, não queria casar, e pronto.

Malagrida, então, não se dando por vencido, pois à todo custo queria salvar o infeliz casal do pecado da união sem as benção da igreja e de Deus, começou, em suas pregações públicas, a falar do caso; e, num sermão, num momento místico de arrebatamento, vaticinou que se o cidadão não mudasse de idéia, sua alma morreria para Deus, e se perderia para sempre.

Acontece que após o vaticínio, realmente esse cidadão veio a morrer, e após reclamar de terríveis dores de cabeça.

A fama de Malagrida como profeta e santo, aumentava.

Ainda nessa cidade, Malagrida curou muitas pessoas, sendo um caso até hoje relatado, que, ao encostar a mão em menina moribunda, com febre altíssima, de imediato ficou boa.

Durante suas expedições, Malagrida cruzou com muitos “companheiros  de batina fora da linha”. Alguns cobravam para rezar missa, principalmente para a alma dos defuntos. Outros viviam os “prazeres da carne”. Outros tinham mulheres e filhos, o que, para Malagrida, era um escândalo sem precedentes, já que a igreja determinava o celibato.

Em um de suas cartas aos seus superiores, Malagrida escreve: - “Esbarrei num vigário que tinha três mancebas patentes e vinte filhos”.

Malagrida era exigente com os fiéis, e mais ainda com os religiosos, e pior ainda, era a sua auto-cobrança. Tamanha austeridade impressionava até os poucos padres corretos das vilas por onde Malagrida passava.

Sempre, depois de sono brevíssimo, o Jesuíta começava a meditação.

Todos os dias, inflexivelmente, recitava as Horas Canônicas.

Depois, dirigia-se ao confessional, e ali, fazia suas contrições de fé. Ainda depois, por volta da décima hora da manhã, subia ao tablado, e explicava a Doutrina Cristã, tanto para alunos, como para o povo do local, como para quem ali estivesse presente.

E ainda respondia perguntas com satisfação, pois entendia que as perguntas a ele dirigidas, era a melhor forma de administrar ensinamentos para quem realmente queria aprender, pois tinha como lema pessoal que: “quem pergunta, é porque quer saber; e quem sabe mais, deve ensinar quem sabe menos”.

Ficava em diálogo, ou ministrando aulas sobre a Doutrina Cristã, até por volta da primeira hora da tarde; e às vezes, dependendo das necessidades de seu público, ficava até mais tarde, noite, ...

Em situação normal, a partir da primeira hora da tarde, voltava para a casa paroquial, e lá, comia, ou poucas favas, ou um pouco de leite.

Observação:

As informações sobre o cotidiano paroquial de Malagrida, estão transcritas em carta do Padre João Brewer, da cidade de Ibiapaba, cidade onde Malagrida ficou entre 05 e 17 de Fevereiro de 1747. O lugar, hoje, chama-se Viçosa do Ceará. Lá, no altar da igreja matriz, ainda existe uma imagem de Gabriel Malagrida, de quatro palmos de altura, e vestido como São Francisco de Assis; e, ficou assim vestida, porque, quando da reforma da imagem, o artista restaurador, assim a vestiu, pois adorava os franciscanos.

O maior sofrimento de Malagrida, era com as “mulheres da vida”.

Ele considerava a prostituição um dos problemas mais graves da Colônia – Brasil.

Naquele seu tempo (e ainda até hoje em muitos lugares), se uma menina perdia a virgindade, caía em desgraça perante a sociedade e, como último recurso de sobrevivência para ela, acabava entrando para a prostituição.

Malagrida sonhava fazer alguma coisa por essas mulheres.

O desafio de “endireitar as prostitutas”, perseguiu Malagrida até 1742, quando conseguiu financiamento para construir o Convento do Sagrado Coração de Jesus, em Igarassu – Pernambuco.

Ali, iniciou abrigando 40 “mulheres da vida”, e todas desejosas de conversão; tanto é, que saíram em romaria, de João Pessoa até a cidade pernambucana.

Observação 1:

Esse “Asilo de Madalenas Arrependidas”, como assim ficou conhecido, tinha âmbito regional. As mulheres que não podiam casar por causa de impedimentos, ou delas próprias, ou dos homens com quem viviam, ou por já serem casadas, tinham as portas abertas, e ali, as mulheres ficavam ao abrigo da miséria e das recaídas. Assim escreveu o Historiador Serafim Leite, no livro: “A História Eclesiástica no Brasil”.

Observação 2:

A atual Diretora do Convento, Madre Superiora Maria Medeiros de Paula, de 48 anos de idade (2007), que é freira desde os seus  17 anos, que nunca teve namorado, e também, que não gosta muito de falar sobre o passado de pecados das fundadoras da instituição, explica as regras do Convento para os dias de hoje:- “Hoje, somente aceitamos donzelas; todas nós somos donzelas; e somente entra na ordem do Sagrado Coração de Jesus, somente moça virgem”.

Observação 3:

A 60 quilômetros do Convento, em João Pessoa, num outro endereço, onde o nome da Rua é Gabriel Malagrida, e bem no centro da Capital Paraibana, ali, perder a virgindade é ganhar a vida. Ali, na Rua Gabriel Malagrida, funciona o baixo meretrício da cidade. Entrevistada, a Sra. Lucila Martins, de 59 anos, dona de um dos maiores bordéis da cidade, brinca com o assunto: - “Esse Malagrida era dos nossos, ... ele é o nosso Santo Protetor”.

Em 1749, novamente, vindo a acatar ordens superiores, retorna para a Europa; só que voltava com a fama de “santo”, e sua missão seria a de tratar de arranjar dotações (recursos), para os vários conventos e seminários (escolas) que fundara no Brasil.

Seu local de destino foi Portugal, cidade de Lisboa.

O pedido para lá ir, tinha partido do próprio Monarca de Portugal – D. João V, o qual, tinha conhecimento da fama de Gabriel Malagrida em terras brasileiras, então pertencentes a Portugal.

D. João V estava muito doente e acolheu de braços abertos o santo jesuíta. Gabriel aproveitou e fez toda sorte de pedidos ao Monarca, que o atendeu.

Na ocasião, Gabriel Malagrida portava uma imagem de Cristo, talhada em madeira, que tinha sido feita no Maranhão, e a ele sido dado como presente. A bela imagem trabalhada, por ordem do Rei, foi conduzida em procissão para a Igreja de Santo Antão, Lisboa, Portugal.

Por ordem também de D. João V, Gabriel Malagrida passou a acompanhar o Monarca em todos os momentos, inclusive determinou que ele ficasse junto de si, na hora extrema de sua morte.

Gabriel Malagrida assistiu aos últimos momentos do Monarca.

Em 1751, Gabriel Malagrida retorna para o Brasil, e para o Pará; só que, politicamente não foi bem recebido, pois o governante era o irmão do Marquês de Pombal, de Portugal – declarado inimigo do jesuíta. Essa situação, praticamente obriga o jesuíta a seguir para o Maranhão.

Gabriel Malagrida ficou no Maranhão até 1754, e nesse tempo não missionou entre os índios, e sim, entre os já cristãos das vilas e cidades.

Também fundou mais um convento e mais um seminário; só que, o seu superior e Bispo, não lhe autorizou a fundação desse último, e na alegação que o Concílio de Trento somente atribuía esse direito de fundação ao Prelado - alguém em cargo superior ao do jesuíta.

Em 1754, atendendo determinação da viúva de D. João V, Dona Maria Ana de Áustria, Gabriel Malagrida voltou a Lisboa – Portugal.

Com a morte do Monarca D. João V, quem estava no poder, era o Rei D. José I; mas, na realidade, quem governava era o poderoso Ministro do Rei, Sr. Sebastião José de Carvalho e Melo - o Marquês de Pombal, um notável político estadista, que, com o seu plano de governo, propunha regenerar Portugal.

Um de seus tópicos de governo, era livrar Portugal de continuar tutelando a igreja católica, motivo de despesas financeiras enormes para o tesouro da coroa portuguesa.

Observação:

Era interesse dos Monarcas, que os nativos das “terras descobertas” se tornassem dóceis e não beligerantes; e ainda, que fossem aliados: índios e brancos, juntos, fazendo prosperar a Colônia, enquanto os negros continuariam escravos. 

E isso se conseguia, e de maneira mais barata, sem o uso de força militar, através os trabalhos de catequese feitos pelos jesuítas, que no uso da pregação de uma religião, fundamentalmente pregava a Paz. Isso desarmava os espíritos indígenas.

O “Sistema Padroado”, foi uma concessão do Papa Alexandre VI, aos Reinos de Portugal e Inglaterra, em 1493, o qual lhes criavam obrigações, mas também, lhes sujeitavam o Clero.

Só que, poucas pessoas sabem, que os termos de contrato entre a igreja católica e os Monarcas, determinava que esse trabalho seria integralmente custeado pela coroa contratante, ou seja – “sistema padroado”.

Em outras palavras, todo religioso à serviço na colônia, seria idem à um funcionário público também da colônia. O Rei de Portugal, por delegação papal, exercia várias das atribuições da hierarquia religiosa e administrava as atividades jesuítas.

Também, todas as necessidades de espaço – terrenos e imóveis, seriam doadas aos religiosos.

E ainda, nas colônias, nas questões administrativas da política, organização e polícia, as opiniões dos religiosos, deveriam ser consideradas.

Só que, os Jesuítas, talvez pela suas ligações diretas com Roma, talvez pela independência financeira que tinham, tinham uma política independente, e com isso, entravam em choque com os desejos dos governantes. Esses choques eram o de não permitir que índios fossem usados como “guardas de fronteiras”, deslocados para pontos distantes para fortalecer territórios, usados como trabalhadores parcamente pagos, o controle das aldeias, bem como a redução de seus territórios.

Por questões como essa, o Marquês de Pombal não podia simpatizar com o Padre Católico Jesuíta e Taumaturgo Gabriel Malagrida.

Note-se que, durante o período em que o jesuíta, anteriormente, tinha estado em Portugal, e junto ao Monarca em seus últimos instantes de vida, e ainda por quase dois anos que ali na Corte ficou, ele se tornou o Padre Confessor e Confidente da Rainha Dona Maria Ana de Áustria.

Portanto, apesar de convidado pela Rainha-Viúva, o Marquês de Pombal não podia permitir que o Jesuíta entrasse novamente na intimidade dela, pois isso poderia atrapalhar os seus intentos de política financeira.

Pressionado, o Jesuíta viajou para a Cidade de Setúbal; e lá, teve a notícia da morte da viúva.

Sem a proteção da viúva de Don João V, o Jesuíta não representava perigo para os intentos do Marquês de Pombal.

Religioso convicto que era, e dentro de seu estigma de profeta, com o decorrer do tempo, percebendo a forma degenerada de costumes dos portugueses, o que considerava contrários à vontade de Deus, em suas pregações inflamadas, advertia aos pecadores que as suas condutas iriam fazer vir fogo do céu, bem como castigos divinos onde todos seriam enterrados em vida, e em buracos abertos pelos demônios.

E, para essas desgraças não acontecerem, era necessário uma reforma intima, onde todos deveriam viver mais próximos das Leis de Deus.

Não havia um só Setubense e Lisboeta que não soubesse das “Profecias do Jesuíta”, sendo que elas seriam piores para os Lisboenses, que era lá onde residia os maiores pecados e corrupções da alma, inclusive estavam dentro da Corte.

Em 1755, previsto, profetizado, ou não, aconteceu um grande terremoto em Portugal.

Quando do terremoto, Gabriel Malagrida estava em Lisboa.; e, aproveitando-se do fato, ocasião e momento, e dentro de suas previsões, aproveitando o clima de medo reinante no povo, e dos castigos de Deus, trabalhou mais ativamente em suas mensagens, exortando os lisboetas à reforma de seus costumes. 

Aquela catástrofe, aliado aos comentários do Jesuíta, provocou um terror imenso na população da Capital.

O Marquês de Pombal, contudo, não gostou nada do que era “alimentado” pelo Jesuíta, tanto pelos seus vaticínios e escritos, como pelas pregações acaloradas.

Devido o estado de coisas, caótico, um dos grandes empenhos do Marquês de Pombal foi o de levantar os ânimos abatidos das pessoas, que viam na catástrofe, realmente, um verdadeiro castigo mandado por Deus.

Para combater isso, o Marquês de Pombal mandou compor e publicar um folheto escrito por um outro Padre, que explicava as causas naturais de um terremoto, procurando eliminar a crença supersticiosa e desanimadora de que o terremoto fora castigo de Deus; e que por isso, ninguém estava obrigado às penitencias, as orações, as procissões e as compunções (pensamentos de se ter cometido pecados).

Como resposta, o Jesuíta Gabriel Malagrida rebate, e escreve um folheto intitulado: “Juízo da verdadeira causa do terremoto que padeceu a Corte de Lisboa no 1º de Novembro de 1755”.

Nesse folheto, combatia com indignação as informações prestadas no comunicado anterior do Marquês de Pombal; atribuía o terremoto como sendo realmente um castigo de Deus para o povo lisboeta; citava profecias anteriores de freiras que preveniam sobre o terremoto; condenava severamente os desabrigados pela desgraça, que teimavam em levantar abrigos provisórios nos campos; execrava os que se habilitavam a trabalhar na limpeza das ruínas provocadas; e recomendava apocalipticamente a necessidade das procissões, das penitências; e sobretudo, determinava o recolhimento e a meditação por seis dias nos exercícios de Santo Ignácio de Loyola.

Por temperamento, o Marquês de Pombal não era homem que permitisse tamanhas contrariedades e subversão da ordem pública; por isso, mandou recolher e queimar todos o folhetos emitidos pelo Jesuíta, bem como determinou o desterro do Padre para a Cidade de Setúbal.

Nesse desterro, Malagrida era visitado por muitas pessoas, e entre elas, membros da Família Távora, declarados inimigos do Marquês de Pombal.

O Jesuíta imaginava que, com o seu prestígio de Taumaturgo, podia lutar contra a política e vontade do Marquês de Pombal, e de lá, lhe escreveu uma carta ameaçadora.

Infelizmente, em 03 de Setembro de 1758, aconteceu um fato chamado de “Atentado dos Távoras”: - O Rei Don José I sofreu atentado contra a sua vida, e quando voltava de uma farra noturna.

O suposto Atentado, e o processo que se seguiu, proporcionou ao Marquês de Pombal, a ocasião para se livrar de vez para sempre do Jesuíta; e daí, conspirou para acontecerem as ilações com a pessoa, e pela carta de ameaça enviada por Malagrida.

Por isso, em 11 de Dezembro de mesmo ano (1758), Malagrida foi preso e transferido para o Colégio Jesuíta em Lisboa.

No dia 11 de Janeiro de 1759, o Padre Católico Jesuíta Gabriel Malagrida foi considerado Réu de Lesa-Majestade, sendo transferido para as prisões comuns do Estado.

Ficou preso numa cadeia imunda, onde usou tinta de parede para escrever dois textos religiosos: um sobre a vida de Santa Ana, e outro sobre o retorno do Anti-Cristo.

Também escreveu que o Apocalipse se daria, provavelmente em 1999, e na virada do milênio.

Com mais severidade ainda, o Marquês de Pombal armou denúncia dele à Inquisição como falso profeta, impostor, e pior de tudo, de ser um herege, o que equivaleria à morte na fogueira. Com isso armado, Malagrida foi entregue para a Inquisição.

Quando da primeira análise do caso “Malagrida”, os próprios Juízes do Santo Ofício concluíram que não havia razões, ou razão alguma, para que o Jesuíta fosse condenado pela Inquisição.

Contrariado com essa decisão, o Marquês de Pombal destituiu o Presidente do Tribunal do Santo Ofício, e nomeou o seu próprio irmão – Paulo de Carvalho, para essa função.

Dessa vez, Malagrida estava entregue às “feras”, e com destino marcado.

Em segundo julgamento, após um processo considerado por vários historiadores como algo grotesco e premeditado, Malagrida foi condenado pela Inquisição de Lisboa.

Acusado de herege, Gabriel Malagrida foi condenado à pena de morte pelo garrote, e depois, que seu corpo viesse a ser consumido pelas “chamas purificadoras da fogueira”.

Septuagenário, alquebrado física e emocionalmente, ficou doente; mas, mesmo assim, ainda defendia obstinadamente as suas crenças e convicções.

Como um retrato final de sua condição nos seus últimos dias, saiu-se com a frase seguinte: “Se, a vida que vivi até os 72 anos, foi uma simples hipocrisia e impostura, possam os cravos que prendem Nosso Senhor Jesus Cristo a esta cruz, transformar-se em raios de fogo, e reduzir-me a pó”.

O Jesuíta ouviu a sua sentença da sua morte, do alto de uma carroça, com um barrete de palhaço enfiado na cabeça, com as mãos amarradas para trás, e com a batina pintada de figuras demoníacas.

Quando o Marquês de Pombal, ao lado do Rei D. José I, ordenou a execução, o Padre foi retirado da carroça e obrigado a caminhar até o cadafalso. Cadafalso este, construído de tábuas em altura acima da cabeça das pessoas. E, por baixo dessa plataforma, diversas toras de madeira empilhadas de forma a cumprir sua finalidade – fogueira.

Chegando às escadas, o Padre beijou-as, subiu ao tablado, olhou para o povo, jurou inocência e perdoou todos os seus acusadores, supliciadores, injuriadores e carrasco.

Caminhou ao local onde ficaria amarrado, e teria o garrote passado em volta de seu pescoço, no que até ajudou o carrasco, apresentando livremente o pescoço.

Amarrado e com o garrote passado, erguendo os olhos para o Céu e exclama: “Senhor, nas Vossas Mãos entrego a minha Alma”.

O carrasco dá a primeira volta no garrote e, a corda se rompe. A multidão grita assombrada. O Marquês amaldiçoa o carrasco que não tinha previamente verificado seus instrumentos de trabalho. A tragédia estava evitada; mas, apenas por alguns minutos, o tempo suficiente para a troca da corda.

Homens e mulheres, espectadores, condoídos da sorte de um homem santo, iniciam, em coro, a Prece dos Agonizantes. Quatro mil soldados designados para evitar qualquer tumulto ou impedimento, pelas ordens do Marquês, avançam ameaçadoramente para o populacho presente e não permitem a continuidade da oração.

Trocada a corda. O Trabalho do carrasco recomeça. Uma, duas, três, quatro, cinco, o estalar de ossos, seis, sete, ... Em poucos minutos, o Jesuíta estava morto, enforcado pela “Santa Inquisição”.

O carrasco desce do patamar, pega e acende a tocha previamente colocada ao lado, acende-a, e ateia fogo em achas embebidas em óleo inflamável, para que apressasse a queima geral de todas a lenha formadora da fogueira.

A fogueira foi acesa. Depois de alguns minutos, o calor era tanto que as pessoas mais próximas recuavam tal o calor. Ela ardeu durante toda a madrugada. Centenas de pessoas velavam o corpo carbonizante. De manhã, as cinzas foram recolhidas, e após, jogadas nas águas do rio Tejo.

Para desgosto do Marquês, corria a notícia, e dada por todos que acompanharam o recolher das cinzas, que o coração do Santo Jesuíta estava intacto, e que o fogo não tinha conseguido queimar o coração do mártir.

O suplício do Auto de Fé, aconteceu no entardecer do dia 21 de Setembro de 1761, tendo sido queimado no Rossio – a praça principal no centro de Lisboa.

O Padre católico Jesuíta Gabriel Malagrida viveu 72 anos, sendo que 30 desses anos passou de pés descalços.

Outras ações do Marquês de Pombal:

O Marquês de Pombal não parou por aí.

No sul do Brasil, estavam acontecendo as “Guerras Guaraníticas”, onde os Jesuítas se aliaram aos índios, e guerreavam contra os portugueses, que queriam ampliar os limites de territórios e fronteiras do país, sendo que, com isso, os índios eram “empurrados” cada vez mais para o interior da selva, o que contrariava os seus hábitos, pois quando no Brasil os portugueses chegaram, a maioria dos índios viviam à beira-mar, que proporcionava melhor clima e melhores meios de sobrevivência. 

Em 1759, o Marquês de Pombal conseguiu expulsar todos os Jesuítas de todas as Colônias Portuguesas.

Todas as propriedades relativas às atividades dos Jesuítas foram confiscadas.

Em 1773, por influência política, conseguiu junto ao Papa Clemente XIV, a extinção da Companhia de Jesus em todo o mundo.

A Companhia de Jesus só voltou a existir em 1814, e os Jesuítas somente retornaram ao Brasil, no final do século XIX, e após a proclamação da República.

O Processo dos Távoras:

O Processo dos Távoras refere-se a um escândalo político português do século XVIII.

Os acontecimentos foram desencadeados pela tentativa de assassinato do Rei Don José I, em 1758; e, culminaram na execução pública de toda a Família Távora, e dos seus parentes e alguns amigos próximos.

Alguns historiadores interpretam o assunto como uma tentativa do Primeiro-Ministro – Sebastião José de Carvalho e Melo - o Marquês de Pombal, de limitar os poderes crescentes das famílias de alta nobreza.

No seguimento do terremoto de Lisboa, em 1º de Novembro de 1755, que destruiu o palácio real, o Rei Don José I vivia num grande complexo de tendas e barracas instaladas na Ajuda, às saídas da cidade, pois lá era o presente centro da vida política e social portuguesa.

Apesar de serem acomodações pouco espetaculares, as Tendas da Ajuda, eram o centro de uma Corte, tão glamorosa e rica, como a de Versalhes, de Luiz XV de França.

O Rei vivia rodeado pela sua equipe administrativa, liderada pelo Marquês de Pombal, e pelos seus nobres.

O Marquês de Pombal era um homem severo, filho de um fidalgo de província, e com algum rancor para com a velha nobreza, que o desprezava. Desavenças entre ele e os nobres, eram freqüentes; mas, toleradas pelo Rei, que tinha confiança em Sebastião e Melo, pela sua liderança inteligente e competente.

Don José I era casado com Dona Mariana Victória de Borbón, princesa espanhola, e tinha quatro filhas.

Apesar de ter uma vida familiar estável e com alegria, pois o Rei adorava suas filhas e apreciava estar com elas e levá-las sempre em passeios, Don José I tinha uma amante, e de nome Tereza Leonor, que era esposa de Luiz Bernardo, um fidalgo na qualidade de herdeiro da família Távora.

O Marquês de Pombal tinha muitos inimigos na nobreza portuguesa; e um deles, ferrenho, era o Conde de Alvor – Don Francisco de A O Conde de Alvor, era casado com a Marquesa Leonor de Távora, e ambos eram os respectivos representantes de uma das famílias mais poderosas do reino português, e ligados às Casas de Aveiros, Cadaval, São Vicente e de Alorna.

Além da Marquesa Leonor de Távora ser uma mulher imiscuída na política, e ser influente na Coroa, ela também era preocupada com todos os negócios de Estado, os quais, a seu ver, estavam entregues a um novo-rico sem nenhuma educação, sem nenhuma nobreza, e sem nenhum preparo para as finalidades.

Ela também era uma devota católica, com forte filiação aos Jesuítas, e tendo como Padre Confessor, um deles, o Gabriel Malagrida.

O Atentado contra o Rei:

Aconteceu que, na noite de 3 de Setembro de 1758, Don José I seguia, incógnito, numa carruagem, por ruas secundárias e nos arredores da cidade de Lisboa.

O Rei regressava para as Tendas da Ajuda, depois de mais uma noite com a amante Tereza Leonor.

No caminho, a carruagem foi interceptada por três homens desconhecidos, que dispararam uma arma de fogo sobre o ocupante e cocheiro. Don José I foi ferido em um braço, e o cocheiro foi gravemente ferido.

Apesar de feridos, conseguiram retornar para as Tendas de Ajuda. 

De imediato, o Marquês de Pombal tomou controle da situação. Mantendo em segredo os fatos, o ataque, e os ferimentos infligidos ao Rei, ele iniciou rapidamente as investigações.

Poucos dias depois, dois homens foram aprisionados como suspeitos, e torturados. Sob tortura, confessaram suas culpas, e que tinham sido contratados pela Família dos Távoras.

Confessaram mais ainda, dizendo que os Távoras conspiravam contra a Coroa, e que a intenção, após a morte e Don José I, seria a de colocarem o Duque de Aveiro – Don José Mascarenhas, no trono.

Os dois suspeitos e confessores, após a lavratura jurídica de seus atos, foram enforcados no dia seguinte, antes mesmo da tentativa do regicídio ter se tornada de conhecimento público.

Nos dias que se seguem, a Marquesa Leonor de Távora, o Conde de Alvor, e todos os seus filhos e filhas, netos e netas, foram encarcerados.

Os acusados de conspiração, o Duque de Aveiro, o Marquês de Alorna, o Conde de Atouguia, e todos os genros, foram presos, juntamente com todas as suas famílias.

O Padre Jesuíta Gabriel Malagrida, por estar na condição de confessor da Marquesa Leonor de Távora, também foi preso.

A amante do Rei, também foi presa junto com os demais.

No julgamento, todos os citados foram acusados de alta traição e de regicídio.

As provas apresentadas em tribunal eram as mais simples:

Primeira: As confissões dos assassinos já executados.

Segunda: A arma da tentativa de homicídios, pertencia ao Duque de Aveiro.

Terceira: Somente os Távoras podiam saber dos afazeres e percurso do Rei nessa noite, uma vez que ele regressava após encontro com sua amante, pertencente a Família dos Távoras.

Apesar dos Távoras negarem todas as acusações, foram todos, condenados à morte.

Todos os bens foram confiscados pela Coroa.

O nome Távora foi eliminado como sendo de linhagem de nobreza, e os brasões familiares ligados aos Távoras, foram proibidos.

A sentença de morte ordenou a execução de todos, incluindo todas as mulheres e crianças.

Apenas a intervenção da Rainha Mariana, e de Dona Maria Francisca – herdeira do trono, salvaram a maioria das mulheres e crianças.

A Varonia – Linhagem de nome – dos Távoras, foram transferidas para as Casas dos Condes de São Vicente.

Os membros da Família Alorna, e as filhas do Duque de Aveiro, foram condenadas à prisão perpétua, e para serem cumpridos em Mosteiros e Conventos.

A Marquesa Leonor de Távora, ferrenha inimiga política do Marquês de Pombal, não foi poupada. Tanto ela, como todos os demais acusados e sentenciados, foram torturados e executados publicamente em 13 de Janeiro de 1759, num descampado preparado para isso, como um circo romano de horrores, e fora de Lisboa.

A execução foi cruel e violenta, mesmo para a época: as canas das mãos e dos pés foram partidas com paus, e as cabeças foram decapitadas. Depois, os restos dos corpos foram queimados, e as cinzas jogadas no rio Tejo

Durante a execução, o rei esteve presente, juntamente com toda as sua Corte. As cenas assistidas foram absolutamente chocantes, selvagens e cruéis, o que abalou a todos; mas, o Rei assim quis, para que a lição fosse aprendida, no intuito de que a nobreza, e nem o povo, se rebelasse mais contra a autoridade régia.

O palácio do Duque de Aveiro, em Belém, Lisboa, foi demolido, e o terreno foi salgado, simbolicamente, para que nada mais ali crescesse.

Nesse local, hoje chamado de “Beco do Chão Salgado”, existe um marco alusivo ao acontecimento, mandado erigir por Don José; e nessa lápide pode-se ainda ler: “As armas da família Távora foram picadas, e o nome Távora foi proibido de ser citado aqui”.

Discussão da defesa da Família Távora:

A culpa ou a inocência dos Távoras é ainda debatida, hoje, por historiadores portugueses.

Por um lado, as más relações entre a alta nobreza e o Rei, estão bem documentadas.

A falta de um herdeiro masculino ao trono, era motivo de desagrado para muitos; e o Duque de Aveiro, era de fato, uma opção para o trono.

Por outro lado, alguns historiadores se referem a algumas “coincidências”:

(primeira) com a condenação dos Távoras, e;

(segunda) posteriormente a dissolução da Companhia de Jesus – os Jesuítas;

(terceira) a nobreza fica refreada pelo medo, ao assistirem as cenas de horrores da execução; desaparecem todos os inimigos do Primeiro Ministro – Sebastião de Melo – o Marquês de Pombal.

Em sua defesa, os Távoras argumentaram que a tentativa de assassínio de Don José I, teria sido um simples assalto comum, uma vez que o Rei viajava sozinho e incógnito, à noite, por ruas estranhas, perigosas e escuras, onde nela era comum os assaltos aos desprotegidos já que o rei viajava sem guarda pessoal; e ainda, não havia na carruagem nada que identificasse ou distinguisse o Rei, dos demais cidadãos comuns.

Outra pista, da suposta inocência dos Távoras, é que após o fracassado “atentado”, nenhum dos Távoras ou familiares tentaram fugir de Portugal.

Conseqüências:

Culpados ou não, as execuções dos Távoras foram um acontecimento devastador para Portugal, que movimentou toda a opinião pública, já que nessa época, a pena de morte já estava em desuso, e a execução de toda uma família prestigiada constituiu um choque nacional.

A futura Rainha, Dona Maria Francisca I, ficou tão afetada pelos eventos, e pelo que foi obrigada a assistir, que, tão logo chegou ao trono, aboliu a pena de morte, exceto em caso de guerra.

Com essa atitude da Rainha Maria I, Portugal foi um dos primeiros países a abolir a pena de morte.

O fim do Marquês de Pombal:

Por esses fatos, e outros sabidos pela Rainha Dona Maria Francisca I, orquestrados pelo Primeiro Ministro – o Marquês de Pombal – Sebastião José de Carvalho e Melo, o desprezo dela, por ele, foi absoluto.

Ela removeu-lhe todos os poderes, parte de bens de origem duvidosa, e expulsou-o de Lisboa.

Ainda, emitiu um decreto proibindo a presença dele, a uma distância inferior a 20 milhas das linhas de divisa da Capital Lisboa.   

Adendos:

Na opinião do filósofo francês Voltaire, na obra “Cândido”, e que se ligo ao processo de Malagrida, pela Inquisição: - “ao excesso de absurdo, juntou-se o excesso de horror”.

Em 2005, o escritor português Pedro Almeida Vieira, publicou o romance: “O Profeta do Castigo Divino”, que tem como personagem principal o Padre Gabriel Malagrida, incidindo sobre o período antes do terremoto de Lisboa de 1755, até a sua morte no Auto de Fé de 1761.

No Brasil, foi também recentemente realizado um documentário sobre a vida desse Jesuíta, e pelo realizador Renato Barbieri.

No Museu das Dorotéias, em São Luiz – Maranhão, está o banco de madeira onde dormia Malagrida. Ele se mortificava sempre. Ao lado do banco, está a imagem de Nossa Senhora das Missões, e o quadro com o desenho do Padre segurando um cajado, que usava durante suas peregrinações nas florestas do Maranhão.

Na capital maranhense, ele também construiu a Capela do Recolhimento de Santa Tereza – o primeiro mosteiro feminino do Estado, onde hoje funciona o Colégio de Santa Tereza.

Na cidade de Aldeias Altas – Maranhão, Malagrida escapou da morte e catequizou os índios Guanarés – etnia extinta do Maranhão.

No município de Várzea do Norte, hoje Santa Rita – interior da Paraíba, o Sr. José Vieira Martins, de 72 anos (em 2007), promove cursos sobre Malagrida. Ali, ele pregou contra os amancebados. Diz a história local, que um homem, não querendo ouvir e desdenhando o Jesuíta, não o quis atender em suas rogativas, e por isso, acabou morrendo instantaneamente.

Também nessa cidade, o Posto de Saúde local, tem o nome de Malagrida, sendo que na frente, há uma enorme estátua de cimento, do jesuíta.

No norte do Piauí, na cidade de Piracuruca, o Jesuíta escreveu que deu a idéia de construir uma grandiosa igreja, e pediu esmolas ao povo para a obra. Aconteceu assim: “Servia de igreja, aí, uma vil casa de farinha, e com quatro papéis mal pintados por cima, e cheias de morcegos. Eu mesmo dei a idéia de construir grandiosa igreja, e todos ofereceram suas esmolas”, conta Malagrida numa carta enviada ao Bispo de Algarve, em Portugal.

Hoje, em 2007, 262 anos depois, o templo de Piracuruca está de pé, e é mantido pelo Padre José da Silveira Ribeiro, de 37 anos, que vive de doações dos moradores da cidade.

Na cidade de Igarassu, em 1742, construiu o Convento do Sagrado Coração de Jesus, para onde levou 40 prostitutas convertidas. Na porta do Convento, há uma placa que registra Malagrida como o fundador da Ordem do Sagrado Coração de Jesus no Brasil.

Na cidade de Viçosa do Ceará (antiga Ibiapaba) – Ceará, no altar da igreja da cidade, há uma imagem de Malagrida, vestido igual à São Francisco de Assis. A imagem tem aproximadamente 80 centímetros de altura. Nessa cidade, Malagrida passou 12 dias, tomando leite e comendo mandubi – fruta com sabor de noz.

Na cidade de Jacobina, quando por lá passou, Malagrida ficou escandalizado com a pobreza da igreja matriz, e exigiu do vigário que construísse uma igreja nova, utilizando-se das economias do próprio vigário, e com a ajuda do povo da cidade.

Na cidade de Salvador – Capital da Bahia, quando por lá passou, Malagrida construiu o Convento de Soledade.

O único livro publicado em português, e até o momento (2007), sobre Gabriel Malagrida, é o do Jesuíta Italiano - Ilário Govoni, morador em Terezina – Piauí.

O livro chama-se: “O Missionário Popular do Nordeste” - Coleção Heróis da Fé, Porto Alegre, 1992.

Consta que o Professor e Historiador da Universidade de Brasília, DF, Sr. Vitor Leonardi, é um emérito pesquisador de Gabriel Malagrida. Consta também, que ele teve acesso aos relatos de Mathias Rodrigues, um dos companheiros de apostolado de Malagrida, e todos relacionado ao do tempo em que ambos estiveram aqui no Brasil.

O manuscrito de Mathias Rodrigues está hoje, na Biblioteca dos Padres Boulandistas, em Bruxelas, na Bélgica.

Cronologia:

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